Proposta Conceitual do Diretor
- Epigenia CT
- 13 de jan.
- 2 min de leitura
A Proposta Conceitual: Da Investigação à Escolha do Foco
O processo de direção não começa no palco, mas no silêncio da leitura. A primeira tarefa do diretor é uma espécie de investigação profunda para identificar a proposta conceitual do autor. É preciso mapear o tema, o objetivo e, principalmente, o Super-objetivo — aquela força motriz que sustenta toda a arquitetura da peça.
1. O Super-objetivo do Autor vs. O Foco do Diretor
Embora o autor estabeleça uma base (o Super-objetivo), o diretor tem a liberdade — e a responsabilidade — de escolher qual lente usará para olhar essa obra. É aqui que nasce a Proposta Conceitual do Diretor.
Identificação: Reconhecer que, em Romeu e Julieta, o Super-objetivo é o Amor.
A Escolha (O Corte): O diretor pode decidir que, para a sua montagem, o amor não será o centro solar, mas sim o combustível para a violência ou para o conflito de gerações.
A Deslocação de Ênfase: Ao escolher um objetivo secundário e elevá-lo ao posto de protagonista, o diretor cria uma nova camada de leitura. Ele não ignora o amor, mas o submete a um novo foco — como transformar o clássico em uma guerra urbana moderna, onde o foco é o impacto social dessa paixão.
2. O "Sobre o Quê": Definindo o Alvo
A proposta conceitual é a resposta definitiva para a pergunta: "Sobre o que eu estou falando agora?".
Sem essa escolha clara, a direção corre o risco de ser apenas uma "leitura correta" do texto, sem alma e sem ponto de vista. Quando o diretor escolhe o seu foco principal, ele está, na verdade, criando o filtro pelo qual todos os outros elementos passarão:
No Texto: O que será cortado ou repetido para reforçar esse foco?
No Elenco: Qual temperatura de atuação o foco escolhido exige? (Se o foco é a violência em vez do lirismo, o corpo do ator precisa de outra tensão).
No Design Cênico: Como o espaço e a luz podem materializar essa escolha?
A Proposta Conceitual é o ato de dar um passo à frente do autor. É entender o que foi escrito para decidir o que será visto.
O Funil da Criação
Podemos visualizar esse processo como um funil:
O Todo (A Peça): O universo vasto criado pelo autor.
O DNA (Super-objetivo): A alma da obra identificada pelo diretor.
O Foco (Proposta do Diretor): O recorte específico, a escolha de qual ferida tocar.
A Cena: A materialização dessa escolha através do tripé (texto, elenco e design).


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